sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Apesar do Zito...


Neste domingo (15/11) gays, lésbicas, travestis e transexuais comemoram o Dia da República na 4ª Parada do Orgulho LGBT de Duque de Caxias e se solidarizam e ajudam as vítimas das enchentes no município

Organização pede que participantes levem alimentos e roupas

É com imenso prazer que convidamos a tod@s para a 4ª Parada do Orgulho de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais de Duque de Caxias (RJ), este ano em um momento especial: o país comemora 120 anos da Proclamação da República, o mundo celebra os 40 anos do episódio de Stonewall e o movimento LGBT brasileiro festeja o fato de o PLC 122 (que criminaliza a homofobia, equiparando-a ao crime de racismo) ter sido aprovado em importante Comissão da Câmara Federal. A Parada acontece no dia da Proclamação da Republica por que gays e lésbicas defendem a cidadania de todos e não somente de seu segmento. Por essa razão, a organização do evento, solidária com as vitimas das enchentes de Duque de Caxias, pede que cada participante leve um quilo de alimento não perecível, roupas ou brinquedos para as famílias vitimadas pelos alagamentos, provando assim o papel social das Paradas do Orgulho LGBT.

Organizada pelo Grupo Pluralidade e Diversidade de Duque de Caxias em parceria com o Projeto Legal, com o apoio do Governo do Estado do Rio de Janeiro – através da Superintendência de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos –, do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT do Rio de Janeiro, Grupo Diversidade de Niterói, Grupo Liberdade de São Gonçalo e Grupo Mover-se de Nova Friburgo a 4ª Parada do Orgulho LGBT da cidade terá como slogan “A República é de todos! Liberdade de expressão e direitos LGBT Já! Não à vinculação entre órgãos públicos e religiões pelo estado laico!”, tendo como uma das suas principais bandeiras a aprovação pelo Senado Federal do projeto de lei da Câmara nº122, que criminaliza a homofobia.

O evento começa às 13h na Avenida Brigadeiro Lima e Silva e tem previsão de encerramento às 19h30. Estarão presentes o ministro do meio Ambiente, Carlos Minc, lideranças públicas como Cláudio Nascimento (Superintendente de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos) e Gilza Rodrigues (Presidente do Grupo Arco-Íris), além de representantes da classe artística, como o promoter David Brazil e a modelo/atriz Viviane Araújo, padrinho e madrinha da Parada.

Vamos finalmente conseguir ir às ruas da cidade de Caxias com a cabeça erguida e orgulho de sermos quem somos para comemorar a vitória da liberdade sobre o obscurantismo do governo local, que no último dia 11 de outubro impediu que a manifestação fosse realizada, em uma atitude preconceituosa e fundamentalista. Vamos às ruas mostrar que a nossa luta é digna, nosso amor é legítimo e nosso objetivo é a PAZ! Nos vemos lá!

Pra não dizer que não falei das flores (ou da moça de rosa)



O episódio da Uniban nos fez revisitar os tempos medievais


*Well Castilhos

Vamos falar das mulheres! Assim como os negros e as pessoas LGBT, elas são consideradas minorias. É claro que o termo “minorias” não se refere aqui ao quantitativo desses três grupos na sociedade, mas foi uma forma que esses grupos encontraram para se organizar e poderem lutar por seus direitos, uma vez que estas pessoas frequentemente são alvo de uma sociedade racista, homofóbica, sexista e machista. É desses dois últimos problemas – o sexismo e o machismo – que vou falar aqui.

E o que me faz refletir sobre elas? O caso Uniban. O episódio envolvendo a estudante Geisy Arruda, estudante de turismo da universidade citada (no caso “universidade” em letra minúscula mesmo!) nos faz refletir sobre o papel – ou a idéia que ainda se tem – da mulher na sociedade brasileira (portanto, latina e machista). As mulheres não nasceram independentes – sabemos que nas eras mais medievais, quando ainda a barbárie predominava e as pessoas se matavam à toa, as mulheres, coitadas, eram sempre subservientes e submissas, num mundo onde quem mandava era o homem branco europeu e de posses (preferencialmente). Mas ao longo dos anos, muitas sociedades (felizmente) evoluíram. Nos países desenvolvidos, por exemplo, elas queimaram sutiãs, fizeram um movimento de liberação (conhecido como Womens’s Lib) nos anos 1960 e conquistaram vitórias – hoje, nos países nórdicos, principalmente, homens e mulheres têm direitos e deveres iguais no mercado de trabalho, nas tarefas domésticas e até mesmo nas licenças maternidade e paternidade (sim, eles também deixam de trabalhar por um período para cuidar do(a) filho(a) recém-nascido(a), dividindo com suas mulheres a tarefa de cuidar da criança.

No Brasil, o episódio da Uniban nos fez revisitar os tempos medievais, portanto da barbárie, quando as mulheres não tinham o direito de ir e vir ou vestir-se conforme desejassem. Quem viu o vídeo não lembrou da via crucis? Todos aqueles rapazes e MOÇAS (infelizmente elas também!) – o que Contardo Calligaris da Folha de São Paulo chamou de turba – seguindo a moça de vestido rosa ao coro de “Puta!Puta!” não parecia o martírio do maior símbolo do Cristianismo? Pois é, a via crucis da Geisy é um problema de todas as mulheres, mesmo aquelas boçais que, talvez para impressionar os meninos, acabaram agredindo a moça. Se a roupa dela era adequada ou inadequada para o ambiente, isto é outra história, o que não devemos é justificar com isso aquela barbárie que o Brasil – e talvez o mundo – viu acontecer em pleno século 21. E o pior, que uma universidade permita que aquilo aconteça em suas dependências (universidade não é o lugar da razão e do conhecimento?) e não puna os responsáveis. Que vergonha! Com este triste episódio, saibam as mulheres que, mesmo com Lei Maria da Penha e uma Secretaria da Presidência dedicada a elas sua situação nesta sociedade está longe de ser consolidada e respeitada. Mesmo as moças que também gritaram “Puta!” poderão ser as próximas vítimas. E, por isso, todos nós, independentemente de sermos LGBTs ou não, temos que comprar esta briga.

Afinal, quem gostaria de ver sua mãe ser avacalhada por uma turba daquelas? Ou aquela nossa melhor amiga – aquela mona atinada que toda a biba tem como amiga? Ou mesmo o L da sigla – nossas companheiras lésbicas – apanhar por sua orientação sexual? Estas sofrem preconceito duplo: por serem mulheres e ainda por serem mulheres que não gostam sexualmente de homens. Por isso mesmo, por carregarem tamanho estigma e séculos de discriminação, decidimos ser melhor que o L viesse na frente do G na I Conferência Nacional LGBT, realizada em 2008 em Brasília, lembram? Ou nossas tias, avós, sobrinhas, filhas... São tantas as mulheres que se viram retratadas na Geisy... As certinhas, as menos certinhas, as mulheres frutas, as carolas, as nisseis de São Paulo, as loiras do Sul, as nordestinas, as popozudas do Rio, as inteligentes, as burras etc.

Agora o fato aconteceu contra as mulheres, mas se nos calarmos daqui a pouco acontece algum caso de racismo – talvez um(a) negro(a) possa vir a ser barrado(a) em algum lugar, como acontecia no passado – ou de homofobia extrema – nós, LGBTs, termos que voltar a esconder nosso desejo –, ou uma adúltera ser apedrejada em praça pública, por exemplo. E talvez, com o ritmo que essas incivilidades estão acontecendo em nosso país, vamos passar a achar tudo isso (racismo, machismo, sexismo, homofobia) normal. Espero que não. Está na hora de reagirmos.

Na próxima, vou falar dos homens...

*Well Castilhos é jornalista e ativistae LGBT, presidente do Grupo Liberdade LGBT de São Gonçalo e coordenador do website do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CLAM/UERJ) – www.clam.org.br

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Aprovado projeto que criminaliza a homofobia (PLC 122) na Comissão de Assuntos Sociais da Câmara


Enquanto não vira lei, site do Senado promove enquete sobre o projeto. Vote!

A criminalização da discriminação contra idosos, deficientes e homossexuais foi aprovada na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) na forma de um substitutivo da senadora Fátima Cleide (PT-RO) ao projeto de lei da Câmara (PLC 122/06). A proposta original, de autoria da então deputada Iara Bernardi, inclui a punição de atos discriminatórios por sexo, gênero ou orientação sexual na já existente lei que pune a discriminação por racismo, religião ou local de nascença.

A proposta agora volta à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH). Caso aprovado, o projeto retornará à Câmara dos Deputados, uma vez que foi modificado pelos senadores. “Creio que foram feitos bons entendimentos e acordos sobre a redação do projeto de lei 122. O projeto original tinha algumas falhas legislativas que precisaram ser corrigidas, e por isso foi feito um substitutivo. Neste substitutivo foi consenso que deveríamos incluir outras populações que também são discriminadas”, avalia Toni Reis (foto), presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT).

Segundo o ativista, a aprovação do substitutivo na Comissão de Assuntos Sociais é o primeiro passo de um longo caminho. Depois de votado na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa, o projeto deverá passar pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, e depois no Plenário do Senado. “Depois disto tudo o projeto retorna para o Câmara dos Deputados e finalmente para sanção presidencial”, explica Reis.

O site do Senado lançou uma enquete sobre o projeto de lei. Acesse a página clicando http://www.senado.gov.br/agencia/default.aspx?mob=0 e responda a pergunta (lado direito inferior da tela): Você é a favor da aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que pune a discriminação contra homossexuais? Até o momento desta publicação, 48% dos respondentes disseram-se a favor, enquanto 52% afirmaram ser contra a proposta. Vamos votar e inverter esse quadro, mostrando que nesse mundo há um número maior de pessoas dispostas a mudar realidades duras do que aquelas que querem mantê-las.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

“A sociedade é bissexual”, diz cineasta


Para cineasta e ativista, a experiência com alguém do mesmo sexo faz parte do desenvolvimento sexual

(entrevista originalmente publicada no jornal A Gazeta de Vitória - ES)

Há quase 25 anos, Vagner de Almeida estuda questões de sexualidade e gênero no Brasil. Mais do que falar sobre isso, Vagner se propôs a dar voz a homossexuais e travestis em seus filmes. A violência contra quem tem coragem de fazer opções diferentes é tema recorrente em todas as suas obras. Violência essa gerada pela intolerância, pelo preconceito e pela hipocrisia. Para ele, grande parte da sociedade é bissexual e se recusa a admitir, muitas vezes para esconder a homossexualidade.


“Se a gente aceitar que há outras opções além da relação homem e mulher e desistir de julgar as pessoas pela aparência, vai ficar muito mais fácil viver nesse mundo”, ensina.

De onde veio a motivação para fazer filmes sobre homossexuais?

Há anos venho trabalhando com questões de gênero, direitos humanos e saúde. E desde então vinha fazendo muita coisa, como documentários e vídeos educativos para homens HSH (Homens que fazem Sexo com Homens). A ideia era fazer uma trilogia. O primeiro foi o “Borboletas da
Vida”, que mostra a transformação de jovens em travestis, seguido por “Basta um Dia”,
que mostra o cotidiano dos travestis já assumidos. Mas, quando estava me preparando para fazer o último - hoje em faze de finalização, “Sou Mulher, sou Brasileira, sou Lésbica” -, vi que quase todas as protagonistas dos dois primeiros tinham sido assassinadas. Foi aí que surgiu “Sexualidade e Crimes de Ódio”, para mostrar essa realidade tão bruta vivida pelos travetis.

A gente se acostumou com uma imagem do gay glamourizado e você denuncia a violência. Como essas duas realidades se e n co n t r a m ?

A violência contra o gay existe em todas as esferas. A sociedade é homofóbica e intolerante e,
por isso, as pessoas preferem, por autodefesa, continuar em seus casulos. Tem a violência que gera mortes, mas tem também a violência cotidiana, de xingamentos, de olhares enviesado. Os travestis ainda sofrem com a violência do sistema educacional, da comunidade onde vivem, de tudo o que eles têm que abandonar para se assumir. E tem a violência da própria comunidade
GLBT, onde também há discriminação. O que se vê nas paradas gays incentiva essa glamourização. A tal ponto que o maior símbolo das paradas são as Drag Queens, que nem necessariamente gays são. Mas, no fundo, há uma grande desunião, incapaz de mobilizar. Tanto que mesmo com todas essas paradas, até hoje o abaixo-assinado do site Não Homofobia, não tem
1 milhão de assinaturas para movimentar o projeto de lei que criminaliza a homofobia.

Você está terminando um filme sobre lésbicas. A violência é maior contra elas?

Há muita violência física contra o homem gay, noticiada pelos jornais, inclusive. Mas, no caso
das lésbicas, é pior, pois essa violência é velada. Ela começa dentro de casa. O menino afeminado
é cobrado para ser macho pelos pais, mas a mulher é achacada, xingada, colocada para fora e tachada de “vergonha da casa”. Por isso, a mulher lésbica está muito mais dentro do armário
do que os homens homossexuais. O homem assumido é glamourizado, ele vira cabeleireiro,
melhor amigo das mulheres. A mulher que é visivelmente percebida como lésbica não tem
a mesma aceitação. Mesmo quando desenvolve atividades tipicamente masculinas.

Ela sofre também pelo simples fato de ser mulher...

Exatamente. Em primeiro lugar porque a mulher é mais frágil fisicamente, o que já dá vantagem ao homem. Em segundo lugar, por causa da sociedade em que vivemos, machista, patriarcal,
que obriga mulheres a arrumar a casa enquanto o irmão pode sair para jogar bola. A mulher
sofre com muitos estigmas, tem salários menores, obrigação de casar, de obedecer, de procriar mesmo quando é lésbica. A cobrança é maior, e a violência consequente dela também.


O homossexual masculino é mais aceito que a lésbica?

De certa forma, sim. O homem vira cabeleireiro, e a mulher, tem que virar estivadora? Aos
poucos, essa mentalidade vai mudando. Assim como a mulher de uma forma geral vem lutando
ao longo das últimas décadas para conseguir um lugar ao lado do homem na sociedade, as lésbicas começam agora essa luta pelo reconhecimento. Para elas, é mais difícil sair do armário. Tanto que as lésbicas mais novas não se masculinizam, fazem o tipo mais básico, com calça jeans, chapéus. Mas, no filme, as lésbicas destacam uma coisa: elas não querem ser aceitas, querem apenas respeito, como qualquer outra pessoa.


Afinal, o que é ser homossexual no Brasil?


Essa é a pergunta que norteia o documentário sobre as lésbicas. Nas histórias, surge sempre a relação de parceria com outras mulheres, as drogas, a bebida, a obesidade e até a AIDS, pois elas
também são infectadas, apesar de não se sentirem vulneráveis. Mas ser lésbica difere muito de
acordo com o segmento social. A classe social influencia muito o fato de a mulher se assumir ou
não. Porque elas perdem trabalho, amigos, vários direitos quando são “descobertas”. A
classe média e principalmente a classe alta são as mais segregadas. Muitas delas não conseguem
pronunciar a palavra “lésbica”. Se recusam a se colocar nesse contexto. Apenas as ativistas
e as mulheres das camadas mais populares toparam aparecer no vídeo, por exemplo.


Muita gente, para não assumir, se esconde na bissexualidade, que parece até estar na moda...

Verdade, e, muitas vezes, essa postura é criticada dentro do próprio movimento GLBT. É
uma situação impressionante, mas não chega a ser um fenômeno. É apenas uma coisa que está
vindo à tona agora. Com a luta de vanguarda dos homossexuais, os “bi” começaram a se sentir mais confortáveis em se assumir. Nos anos 1990, teve um momento em que a bissexualidade
foi muito contestada, porque todo homossexual masculino, quando ainda não podia assumir
a experiência com outro homem, se desculpava dizendo que apenas “comia” os homens, que era o ativo, só para não deixar a oportunidade passar.


Hipocrisia misturada com p r e co n ce i t o . . .

A nossa sociedade, na verdade, é completamente bissexual. Não é homossexual, nem travesti,
nem lésbica, principalmente se levarmos em conta o número de homens casados que transam com outros homens ou com travestis. A diferença é que, amparados no estereótipo do macho, do “comedor”, eles multiplicam ainda mais os preconceitos, as piadinhas contra gays. Isso, pelo menos até o primeiro gole de bebida alcoólica, quando todos se revelam. Só que, para a comunidade GLBT, se você, em qualquer momento da sua vida, beijou ou teve relações
com alguém do mesmo sexo, você é gay. Eu particularmente discordo. O fato de uma mulher
ter beijado uma outra mulher uma vez ou duas não quer dizer que ela seja lésbica. Afinal, você
vive num campo de sexualidade em que os desejos afloram e você tem o direito de experimentar
e, no futuro, seja de curto ou longo prazo, escolher aquilo que te interessa mais.


A bissexualidade seria apenas uma transição?

A bissexualidade, para mim, é uma ponte, em que você transita de um lado para outro. Mas
existe sim a bissexualidade em que você se sente atraído e excitado por ambos os sexos. Mas tem também as pessoas que se escondem na bissexualidade para não assumir 100% o lado homossexual. Muitos escondem para não atingir os filhos de um casamento heterossexual.
Mas criança não é preconceituosa. Nós, sociedade, é que fazemos com que ela cresça assim. Nós ainda criamos nossos filhos dentro da heteronormatividade. E aí qualquer coisa que fuja desse
padrão vai continuar sendo vista como errada, mesmo que, quando crescer, a pessoa sinta
essa atração diferente, o que causa muitos conflitos. Não dá para pensar que o homem nasceu
para a mulher, vice-versa e pronto. Pois há sim opções. O desejo pode ser sufocado, mas
não vai ser morto, nem por psicólogos, nem por religiões. A gente vive nas capitais, glamourizando as paradas, acha que é tudo muito normal. Mas o resto do Brasil não está preparado para respeitar essa diversidade”. A violência contra as lésbicas é velada. Ela começa
dentro de casa. A mulher é xingada, colocada para fora e tachada de ‘vergonha da casa’”. A sociedade é homofóbica e intolerante e, por isso, as pessoas preferem, por a u t o d ef es a ,
continuar em seus casulos”

* Va g n e r de Almeida tem 52 anos e é coordenador do Projeto Juventude e Diversidade
Sexual da ABIA – Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS – no Rio de Janeiro. Faz parte da equipe do Programa de Gênero, Sexualidade e Saúde Sexual nas Comunidades Latinas da Mailman School of Public Health, na Universidade de Columbia, Estados Unidos. Diretor de
filmes e teatro, ativista, escritor, ator e crítico de teatro, foca seu trabalho nas questões de gênero e sexualidade e a relação entre a exclusão social e saúde (http://www.vagnerdealmeida.com/)

O Ministério da Saúde adverte: Muitas vezes é melhor ficar calado e Passeata Gay não dá câncer de mama


Parada Gay do Rio consolida movimento carioca e cidade do Rio é escolhida como melhor destino gay do mundo

*Well Castilhos

(publicado originalmente no Portal Mundo Angel) - http://www.mundoangel.com.br/colunas/


Gente, viramos a Geni!


No dia 11 de outubro, o prefeito de Caxias (Duque de Caxias – RJ, não Caxias do Sul – RS), Camilo Zito (PSDB), proibiu a realização da 4ª Parada LGBT do município no dia em que o evento ia acontecer, alegando ter tomado a decisão por diferentes motivos: em consideração a cartas assinadas por pastores e pela Igreja Católica, que o evento “fere os valores da família”, que atrai pessoas de outras cidades que praticam atos libidinosos e bagunça e que havia sugerido aos organizadores que o fizessem em um clube (sem noção!!). Na época, eu achei que as coisas que ele falou ninguém mais falaria (mesmo se tivesse vontade, pra não parecer politicamente incorreto, dado o respeito que o nosso movimento LGBT tem conquistado). Eu estava errado. Parece que a atitude de Zito abriu uma espécie de Porta de Narnia para um mundo paralelo onde se pode dizer tudo, e onde gays, lésbicas, travestis e transexuais parecem nem ter título de eleitor.

Duas semanas depois foi a vez do governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), dar o seu desastroso recado: ele disse no programa "Escola de Governo", veiculado pela TV Educativa daquele estado (comparativamente de gente muito mais bem educada que a de Caxias, na Baixada Fluminense), que o câncer de mama em homens deve ser "conseqüência de passeatas gay". Logo depois, Requião afirmou ter sido “impiedosamente criticado” e que estava apenas se referindo aos riscos que o abuso de hormônios femininos, com fins terapêuticos ou estéticos, representam para a saúde. Entre os riscos, o câncer de mama. Confesso que não consegui até agora resolver o enigma e encontrar uma conexão entre o “uso de hormônios femininos – Passeatas Gay – Câncer de mama”. Na verdade, parece até aquele joguinho “odd word out”, em que você tem que achar a palavra que não tem nada a ver com as outras.

Requião tentou consertar, mas a emenda saiu pior do que o soneto. Ao que tudo indica, ele agora achou uma válvula de escape – as travestis e transexuais que freqüentam as Passeatas e usam hormônios – para se desculpar. Francamente, governador! Pior do que essa, só a desculpa de um dos bandidos assassinos do coordenador do AfroReggae, Evandro João da Silva, morto em assalto no domingo 18 no Centro do Rio. O “meliante” insinuou que só estava querendo dar um susto em “uns caras que estavam cometendo atos libidinosos na rua”, como se isso fosse moralmente justificar o vandalismo que eles fizeram. Mas eles só disseram isso porque acham que, em um país como o nosso com tantos Zitos e Requiões, alguém vai atenuar sua sentença porque estavam somente querendo manter a ordem e os bons costumes.

O problema é que os caras estão muito à vontade para falar da gente. Parece que viramos a Geni da música do Chico Buarque: “Joga pedra na Geni, Joga bosta na Geni Ela é feita pra apanhar, Ela é boa de cuspir...” Alguém outro dia estava me questionando se a fórmula das Paradas, enquanto modalidade de manifestação, estava desgastada ou não. Não, com todo esse contexto vemos que temos que fazer ainda muitas Passeatas. Pelo que sei, o Brasil realiza quase 150 Paradas LGBT, o que torna o país um campeão mundial não somente na ocupação e uso do Orkut. Mas ainda parece não ser o suficiente para calar pessoas como o prefeito de Caxias e o governador do Paraná e fazê-los fechar as bocas e deixar de dizer besteira. Minha avó me dizia que em boca fechada não entra mosca. Ah, e uma daquelas indianas da novela Caminho das Índias também falou: “Só abra a boca quando você tiver certeza que aquilo que você vai dizer é mais importante que o silêncio”. Então tá!

A propósito: domingo (01/11) estive na Parada do Orgulho do Rio de Janeiro. Foi um luxo! Mesmo embaixo de chuva, 17 trios elétricos, presença maciça da população – e também do governador Sérgio Cabral, do prefeito Eduardo Paes e do ministro Carlos Minc, que anunciaram medidas super importantes, entre elas a criação de um órgão municipal para tratar da população LGBT (a exemplo do que fez o estado). Letícia Spiller estava linda em um vestido verde representando o apoio da classe artística.

Ah, e acabo de saber que o Rio foi escolhido como melhor destino gay do mundo. Espero que com esse título, a cidade realmente passe a se tornar o melhor destino pra LGBTs... Não acredito que já seja – há uma visão de relacionar o Rio a tudo que tem a ver com sexualidade, corpos expostos etc, mas assim como ainda não está preparada para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, ainda pode se preparar para assumir de fato o posto de cidade número 1 para gays.

*Well Castilhos é jornalista e presidente do Grupo Liberdade LGBT de São Gonçalo. É responsável pelo website do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CLAM/UERJ) – www.clam.org.br – e pelo blog Santa Diversidade (www.santadiversidade.blogspot.com)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O ditador da Baixada




A decisão de Zito nos dá a idéia do que pode acontecer sem Lula, a partir de 2010

Well Castilhos*

Copacabana, 2 de outubro – 13h50. As 30 mil pessoas reunidas na Avenida Atlântica vibraram com a noticia da escolha da cidade do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016.
Duque de Caxias, 11 de outubro – 14h50. As mais de 50 mil pessoas reunidas na Avenida Brigadeiro Lima e Silva protestaram com vaias e frases do tipo “Alô prefeito / que papelão / você vai ver / na próxima eleição” contra a decisão do prefeito José Camilo Zito de proibir a realização da 4ª Parada LGBT do município localizado na Baixada Fluminense, não por acaso um dos locais mais homofóbicos do estado.

Embora diferentes em sua essência, pode-se estabelecer uma relação entre as duas notícias acima citadas. Acredita-se que o Brasil tenha sido escolhido para sediar os jogos olímpicos de 2016 devido à posição e à credibilidade que o país – e o nosso presidente, Luis Inácio Lula da Silva – ocupam no cenário internacional. Sim, tudo leva a crer que o Brasil vai ocupar um lugar no exclusivo grupo de países desenvolvidos, dado o seu desenvolvimento econômico observado nos últimos anos. Mas em qual outro país desenvolvido – tomemos como exemplo o G8, grupo formado pelos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Alemanha, França, Itália, Japão e Rússia – aconteceria um descabimento como o que vimos em Caxias no domingo 11? Em qual destes países já se teve conhecimento de uma atitude tão intolerante, totalitária, fundamentalista e obscurantista de um prefeito a ponto de proibir uma das mais populares – e legítimas – manifestações do país e que acontece nas principais cidades do mundo? A resposta é: nenhum. Em todos os países desenvolvidos descritos acima há o respeito pela diversidade de seus povos, seja esta racial, religiosa ou por orientação sexual. Aliás, em todos (ou na maioria deles) os homossexuais têm direitos iguais e/ou equivalentes a qualquer heterossexual. Há políticas públicas e leis protetivas, inclusive.

Então, como é que o Brasil espera pertencer a um grupo sem compartilhar os mesmos ideais e a mesma ética que seus outros componentes? Desenvolvimento econômico por si só não basta. A economia tem que estar acompanhada de um desenvolvimento humano, de cabeças e mentes de sua população e seus governantes.

Em sua argumentação Zito vai na contramão de tudo o que é considerado politicamente correto em se tratando de LGBT, alegando coisas que ninguém mais fala (mesmo tendo a vontade de). Foi desastroso em tudo: afirmou ter tomado a decisão levando em consideração cartas assinadas por pastores e pela Igreja Católica (cruzes!), que o evento “fere os valores da família” (que família??), que não são oriundas da cidade "as pessoas que praticaram atos libidinosos e bagunça" nas três edições anteriores do evento (xenófobo?) e que havia sugerido aos organizadores que o fizessem em um clube (sem noção!! huahuahua). Fazer uma manifestação política em um clube? Deveríamos cobrar ingresso, prefeito?

É festa?

Na verdade, o engano de Zito é o mesmo de muito outros: acham que a Parada LGBT é uma festa. Seria, se tivéssemos motivos para festejar. Pesquisas realizadas nas próprias Paradas (pelo CLAM/CESEC) mostram que cerca de 80% das pessoas entrevistadas já foram vítimas de discriminação ou violência devido a sua orientação sexual. De acordo com pesquisa do antropólogo Luiz Mott, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e militante do Grupo Gay da Bahia (GGA), um gay é morto a cada dois dias no Brasil. Em lugares como a Baixada Fluminense, região onde a cidade de Caxias é localizada, as travestis são as maiores vítimas da violência, como mostra documentário do cineasta Vagner de Almeida.

Festa, sr. prefeito Zito, faremos quando o PL 122 – que propõe a criminalização da homofobia no país – for aprovado. A diferença entre a manifestação LGBT e outras é que, a despeito de todos os infortúnios acima citados, encontramos ainda criatividade para manifestar: no lugar dos antigos megafones e velhas kombis, usamos microfones e trios elétricos para que todos nos escutem. E a música também foi o meio encontrado para dar visibilidade à nossa luta. Uma anarquista feminista do século XIX chamada Emma Goldman certa vez afirmou: “De que me vale a revolução se eu não posso dançar?”.

É claro também que não devemos entender a medida do prefeito como uma decisão isolada: é claro que ele ouviu suas bases partidárias, no caso o PSDB, o mesmo que está por trás de candidaturas como a de Zito, a de Alice Tamborindeguy (sem comentários) e a de Marina Silva. Por isso, gente, cuidado na hora de votar no ano que vem. Não vou fazer partidarismos para o PT, mas sim para o Lula. É, o mesmo que lá no início deste texto afirmei que está sendo apontado como o grande responsável pela vinda dos jogos Olímpicos para o Brasil. Ele também é responsável pelo projeto de desenvolvimento econômico e humano (neste, ainda estamos começando) que o país está vivendo no momento. Foi ele o primeiro presidente a criar Secretarias Especiais para as Mulheres, de Igualdade Racial e de Direitos Humanos, o que nos dá hoje a força para responder a atitudes como a de Zito á altura. Não vamos interromper este projeto, vamos? Tomando o tucano Zito como exemplo, podemos vislumbrar o que pode acontecer com nossas liberdades fundamentais caso um governo que tem o PSDB por trás ganhe as eleições presidenciais.
*Well Castilhos é jornalista e presidente do Grupo Liberdade LGBt de São Gonçalo

A cena BDSM e seus personagens

(entrevista publicada originalmente em www.clam.org.br)

BDSM é um acrônimo para bondage, disciplina, dominação e submissão, e sadismo e masoquismo. O BDSM envolve ainda o fetichismo. Embora sejam classificadas como distúrbios sexuais pela medicina, tais atividades sexuais são regidas por um conjunto de “ferramentas de segurança e argumentação” – as quais incluem a chamada safe word, o respeito ao consentimento do parceiro e o conceito SSC (são, seguro e consentido) – criadas e definidas por seus praticantes no sentido de legitimar essas atividades e afastá-las do rótulo da perversão e da patologização. A internet tornou-se assim o principal espaço onde os praticantes do BDSM se comunicam para trocar experiências e organizar-se politicamente para combater o estigma e o preconceito que os perseguem, conforme afirma o pesquisador Bruno DallaCort Zilli no artigo “BDSM de A a Z: a despatologização através do consentimento nos ‘manuais’ da Internet”, desdobramento de sua dissertação de mestrado defendida no Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ) em 2007.

Na pesquisa, feita pela internet, Zilli faz uma análise etnográfica do fluxo de informação contido na web, nos canais que permitem que os praticantes do BDSM entrem em contato uns com os outros, focando-se principalmente nos elementos textuais que contém informações sobre o BDSM, os quais o autor chama de “manuais”.

Um dos autores dos 20 artigos que compõem a coletânea “Prazeres Dissidentes”, que será lançada pelo CLAM e Editora Garamond nos dias 21 de outubro em São Paulo e 10 de novembro no Rio de Janeiro, Bruno Zilli explica nesta entrevista as maneiras pelas quais se constroem subjetividades e identidades coletivas a partir da prática BDSM, interpretando os discursos que seus praticantes utilizam para legitimá-la.

Como explicar ou conceituar o BDSM para além do acrônimo usado para defini-lo?

O próprio acrônimo já indica o esforço de legitimação que caracteriza o BDSM, por parte dos próprios adeptos, no sentido de ressignificar as práticas. Quem não pratica ou conhece o BDSM geralmente define estas atividades como sadomasoquismo, ou mais comumente, como perversões sexuais. No meu estudo eu as entendi como um conjunto de atividades sexuais que formam uma identidade sexual. Os seus adeptos se identificam como praticantes de BDSM, e alguns dizem “Eu sou BDSMista”.

Qual o papel e a importância do consentimento na prática do BDSM?

O senso comum considera o BSM como uma coisa patológica ou criminosa. No entanto, há um esforço entre seus adeptos em legitimá-lo, tornar a prática “politicamente correta”, que se dá através de “ferramentas argumentativas” como o conceito de SSC (que significa que a atividade é sã, segura e consentida). Nenhuma das atividades BDSM deve ser praticada sem que todos os indivíduos concordem com o que esteja acontecendo, para os envolvidos tem que haver consentimento. O dialogo é muito importante entre seus praticantes.

Esse diálogo se dá no sentido de negociar...

Sim, é necessário que cada praticante saiba tudo o que vai acontecer para que possa dar o seu aval. As pessoas entram em acordo sobre o que as excita e o que não, o que esperam do parceiro e o que não desejam, o que não consideram prazeroso. Nesse sentido podemos dizer que o BDSM também é um “jogo erótico”, praticado para estimular o prazer, mesmo que algumas vezes seja através da dor. Não necessariamente uma dor física, pois o prazer pode se dar através da “dor emocional”, uma humilhação simulada, por exemplo. E são esses elementos que dão o sentido erótico destas atividades: a dor e a humilhação.

Todas essas “ferramentas de segurança” e a simulação nos dão uma idéia de que se trata de um jogo cênico. Mas isto não acaba descaracterizando um pouco a prática, tendo em vista que a violência, neste caso, é a fonte do erótico?

De fato, alguns praticantes de BDSM consideram haver um elemento de atuação. Há inclusive debates dentro da comunidade BDSM sobre o que seria o “BDSM real”, e sobre quais os limites do consentimento ou da negociação. Contudo, há o estimulo baseado na dor, e esta é real. E isso é considerado prazeroso. Mas há também a idéia de cuidado e segurança. Por exemplo, os praticantes afirmam que é preciso saber como se amarra uma pessoa sem prender a sua circulação sanguínea. Também, por exemplo, ensinam que se deve evitar bater na região do torso, onde ficam os órgãos vitais. Alguns praticantes falam sobre como essa negociação é erótica em si mesma. A prática não deixa de ter um caráter erótico só porque está sendo “encenada”.
Pode-se perceber que o que se busca com estes cuidados é uma sexualidade legítima, e por isso todos os elementos ilegítimos são expurgados do BDSM, como a violência real. A violência é o principal elemento do BDSM, mas também é o que precisa ser “apaziguado”. Nesse sentido, é possível falar de uma “domesticação” da violência, que é elaborada através do consentimento em algo legítimo e aceitável – justamente porque é consentida.

Qual a relação do esforço dos argumentos de legitimação do BDSM e a medicina?

Os praticantes estão desenvolvendo todo esse conjunto de argumentação para afastar a prática BDSM da criminalidade e da patologia. As perversões são definidas no final do século XIX já com esses nomes que conhecemos – sadismo, masoquismo, o fetichismo a homossexualidade (que saiu deste rol na década de 70 graças aos esforços do movimento gay norteamericano) e se mantiveram estáveis enquanto categorias diagnósticas dentro das classificações psiquiátricas. Dentro da medicina, e da psiquiatria em especial, ainda são consideradas um comportamento patológico. Mas pelas definições médicas, o masoquista só consegue prazer através da dor, o sádico só consegue ter prazer causando esta dor, e o fetichista só se excita com algumas partes do corpo ou objetos específicos, como pés ou couro. Esta exclusividade de só conseguir o prazer em causar ou receber dor ou com certos fetiches é uma das características do diagnostico psiquiátrico para estes transtornos mentais. Entende-se que estes transtornos são realizados contra pessoas que não consentem serem alvo destes desejos. Mas, afirmam os praticantes de BDSM, é sempre consentido o que eles fazem, nunca estão agindo contra a vontade de alguém. Dessa maneira eles desassociam suas práticas das patologias sexuais, que não são consentidas. Além disto, os praticantes reconhecem que não dependem exclusivamente do BDSM para ter prazer, diferente da exclusividade que é descrita como patológica pelos manuais psiquiátricos.

Sua pesquisa analisa os “manuais” de BDSM na Internet, isto é, espaços virtuais onde circulam informações e argumentação sobre a prática, organizados pelos adeptos. Em que medida esses espaços são usados para legitimar essas atividades?

Há um conjunto de regras e definições que circulam em ambientes virtuais que são elaborados pelos praticantes, e que eu chamo de “manuais” - e que podem ser páginas, listas de discussão por e-mail e fóruns, e que não têm um formato único – embora o conteúdo seja sempre muito parecido. Nestes espaços da Internet o BDSM, seus conceitos, atividades e definições são debatidos e refinados pelos seus adeptos. O SSC, por exemplo, tem sua definição mais fechada, mas ainda existem diferenças e desacordos que vão sendo aos poucos negociados para alcançarem uma sintonia maior. Os próprios praticantes reconhecem nestes espaços que o consentimento tem fronteiras e limites, mesmo como uma ferramenta de legitimação e de segurança. Eles debatem esses limites, sempre buscando desenvolver um guia de práticas que sejam mais seguras e legítimas possíveis. Eles entendem que é preciso ter conhecimento para praticar o BDSM. A assimilação dessas regras é parte essencial da prática BDSM. Como saber usar a safe word para negociar o consentimento, por exemplo.

O que é a safe word?

Algum tipo de sinal – que pode ser uma palavra ou gesto – previamente combinado antes da atividade BDSM ser executada que, quando dado no meio da atividade, faz com que tudo pare, porque alguma coisa não está mais dando certo, alguém não está confortável com o que esta acontecendo ou algum limite foi ultrapassado. Por esse motivo, nunca são usadas palavras como “Não” ou “Pare”. A safe word tem que ser uma palavra que não remeta ao contexto erótico do que está sendo praticado. Pode ser uma palavra neutra, que descreva uma cor, como “Amarelo”.

Então ela é combinada previamente?

Sim. Sempre vai se combinar uma safe word, para caso aconteça algo que um participante não goste, mas que acabe sendo feito por seu(s) parceiros(s), ele tenha uma maneira clara e direta de comunicar seu incômodo. É por isso também que o conteúdo das atividades BDSM são geralmente pré-combinados. As práticas estão associadas ao gosto das pessoas. A pessoa que gosta de dominar ou de bater é conhecida como top, e a que gosta de apanhar ou ser submissa é definida como bottom. Há pessoas que se sentem à vontade para desempenhar os dois papéis dependendo com quem estejam. As pessoas que fazem as duas coisas são conhecidas como switchers. Mulheres podem ser tops, pois não é preciso ter um falo. Dominação e sadismo não estão ligados à penetração ou ao estímulo genital, necessariamente. Embora no vocabulário gay norteamericano bottom se refira a quem é penetrado na relação sexual, no BDSM o bottom poder agir como penetrador. Seu papel ainda é de submissão – ele penetra porque a outra pessoa o está “obrigando” a fazer isso dentro do contexto da “atuação” da dominação e submissão. Os praticantes de BDSM entendem que é importante conhecer todas essas definições e nomes.
Não seria este o papel do que você chama de “manuais” em seu trabalho?
Exatamente. O primeiro papel dos manuais é informar, e quem não conhece passa a ter a oportunidade de conhecer. O segundo é ajudar a pessoa que pratica o BDSM a falar dessas atividades de maneira a legitimá-las, explicar que existem regras e guias de atividades de como praticar com segurança o BDSM.

Qual a importância da internet para os praticantes do BDSM?

Além da possibilidade de acessar esse material, a Internet dá a possibilidade do anonimato, o que facilita entrar em contato com outras pessoas que têm gostos semelhantes. Mas também permite que as pessoas debatam e divulguem os conceitos e definições do BDSM. Ao fazer a pesquisa, percebi que havia uma grande quantidade de material online, facilmente acessível, e que o seu conteúdo é muito importante para entender o BDSM.

A preferência e o gosto pelo BDSM são algumas vezes explicados, nos discursos patologizantes, como resultado de algum tipo de trauma na infância da pessoa que o pratica. Como esse tipo de discurso é recebido no circuito pesquisado?

Os praticantes se afastam dessas afirmações. Dizem que é uma prática saudável e não identificam em si mesmos um percentual de traumas e abusos na infância. Um dos esforços principais dos praticantes de BDSM, e que aparece também nos manuais e nos argumentos ao redor do consentimento, é escapar da idéia de que estas atividades são patológicas e abusivas. Os praticantes dizem que não dá para explicar o prazer pela dor, assim como não se explica a orientação sexual de uma pessoa. Definem suas práticas como um direito de exercer sua sexualidade – sem deixar de entender que possuem deveres, que seria a responsabilidade de respeitar o consentimento alheio em participar ou não destas atividades.